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Iniciativas Evangélicas indígenas






Indio Pataxó e Pastor Abimael Santos na Aldeia Caramuru 
        O universo indígena brasileiro, diversificado e multicultural, tem sido constante alvo de dimensionamento estatístico e sociocultural. O presente relatório é fruto da análise do Banco de Dados do DAI e conclusões no que se refere às tendências demográficas, composição étnica e iniciativas evangélicas entre os povos indígenas em diversas áreas. Observaremos as 37 etnias indígenas vivendo em risco de extinção, as 41 emergentes e o processo de urbanização em 111 diferentes grupos. Veremos as 121 etnias pouco ou não evangelizadas, as 95 sem presença missionária e as 38 línguas com clara necessidade de tradução bíblica ou projeto especial de oralidade. Seremos também informados sobre os 257 programas e projetos sociais coordenados pela força missionária evangélica junto aos povos indígenas e sua expressiva relevância.

       Os resultados apresentam um quadro eclético, que envolve crescente migração urbana, uma explosão de indivíduos que passam a se autodeclarar indígenas nos últimos 15 anos, acelerada perda da língua materna nas etnias periféricas às áreas urbanas e intensificação dos problemas de saúde, educação e subsistência nos ambientes de aldeamento.
      O demonstrativo estatístico quanto à presença evangélica e missionária também nos apresenta dados que informam e nos fazem refletir. A Igreja indígena está em franco crescimento, e isto se dá a partir das relações inter-tribais locais, atuação missionária com ênfase no discipulado e treinamento indígena e três fortes movimentos indígenas nacionais. A presença missionária coordena mais de duas centenas de programas e projetos sociais de relevância que minimizam o sofrimento em áreas críticas, sobretudo em educação e saúde, e valorizam a sociedade indígena local. O registro linguístico, associado a produção de material para letramento, é outro vigoroso fruto das iniciativas missionárias que se envolvem, especialmente, com grupos à margem do cuidado e interesse da sociedade.

Tendências demográficas


O crescimento da população geral dos povos indígenas no Brasil é muito significativo. Em 1991 a população indígena oficial do Brasil era formada por 294.000. A partir do ano 2000, porém, o IBGE passa a registrar aumento de até 150% de indivíduos que se autodeclaram indígenas, principalmente nas áreas urbanas ou em urbanização. 734.000 pessoas se declararam indígenas na pesquisa do IBGE do ano 2.000 perfazendo um total de quase 900.000 em 2010. Há diversos motivos para tal crescimento estatístico. Observa-se que tal fenômeno de autodeclaração em grande escala ocorreu principalmente nas regiões urbanas e em urbanização do Nordeste e Sudeste. Os motivos são os mais diversos.
A Fundação Nacional da Saúde (FUNASA), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, apresentou relatórios onde 520.000 indigenas estão sendo atualmente atendidos em 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI’s) vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS). 54.2% dessa população localiza-se na Amazônia legal e 26% em estados da Região Nordeste. O DAI/AMTB, analisando as etnias conhecidas e em estudo, reconhece a população de 616.000 indígenas em 2010. Dentre estes, 52% habitam em aldeamentos e 48% em regiões urbanizadas ou em urbanização. Cerca de 60% da população indígena brasileira habita a Amazônia Legal, composta pelos estados do Amazonas, Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e parte do Maranhão. A partir das leituras de movimentos demográficos, porém, em 5 anos haverá igualdade entre aqueles que habitam as aldeias e os que habitam as pequenas e grandes cidades. A partir de 2015 a quantidade de indígenas habitando centros urbanos será certamente maior, e em gradual aumento. Há uma marcante presença de etnias minoritárias no quadro geral. 35 etnias são formadas por até 100 pessoas; 85 entre 101 e 500 pessoas; 31 entre 501 e 1.000 pessoas; 56 entre 1.001 e 5.000 pessoas; 10 entre 5.001 e 10.000 pessoas; 7 entre 10.001 e 20.000; e 4 formadas por população acima de 20.000 pessoas. 76 etnias não possuem situação populacional determinada e 36 partilham sua população com países limítrofes. 
      Segundo a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) há 611 Terras Indígenas (TIs) reconhecidas ou em fase de reconhecimento que correspondem a 13% das terras do país, sendo 21% da Amazônia legal.

Composição Étnica

      A percepção do dimensionamento étnico passa por diversos filtros que nublam uma estatística mais segura. Um destes filtros é a existência dos grupos ainda isolados, ou seja, etnias que habitam em áreas remotas e que possuem pouco ou nenhum contato com os demais segmentos indígenas ou não indígenas. Há 37 grupos listados nesta categoria, mas eles podem chegar a 52. Há também várias etnias tratadas de forma unitária, que de fato são grupos com distintas identidades socioculturais e lingüísticas. Um exemplo seriam os Yanomami, frequentemente listados como um grupo indígena, mas que compõem diversas etnias distintas. O mesmo ocorre com os chamados “Maku”, um termo genérico e pejorativo, utilizado para se referir a pelo menos 5 diferentes etnias. 
    Por fim, há também os grupos ressurgidos (ou emergentes) que, pela miscigenação com não-indígenas (e outros fatores de dispersão), perderam por algum tempo sua auto-identificação étnica. Por diversos motivos vários voltaram a solicitar seu reconhecimento como povos indígenas e formam 41 etnias em todo o território nacional. Se incluirmos nesta categoria aqueles que, mesmo não tendo perdido a sua auto-identificação por um período, experimentaram um intenso e crescente envolvimento com a sociedade externa (também chamados de “aculturados” em alguns meios) teremos o total de 94 grupos. Desta forma, entre as etnias conhecidas (228), as isoladas (27), as parcialmente isoladas (10), as possivelmente extintas (9), as ressurgidas (41) e as ainda a pesquisar (25), reconhecemos um quadro formado por 340 grupos.
       É importante destacar que 37 destas etnias vivem com risco de extinção, levando em consideração sua população (inferior a 35 pessoas), elementos socioambientais desfavoráveis, limitado acesso a assistência de saúde, conflitos e dispersão, que são os 5 principais fatores no processo de extinção de um grupo. 
     Um dado relevante refere-se ao crescente processo de urbanização. 111 etnias possuem representação em pequenas e grandes cidades, e declaram que os elementos de atração são 
(1) busca por educação formal em Português; 
(2) proximidade de uma melhor assistência à saúde; 
(3) acesso a produtos assimilados (especialmente roupas, alimentos, entretenimento e álcool); e 
(4) expectativa de melhor subsistência. Os dados quanto ao processo de urbanização e suas implicações socioculturais, sociolinguísticas e familiares ainda são inconclusivos, porém, apontam, em grande parte, para um cenário por demais preocupante, formado por sérias deficiências de inclusão social; empobrecimento da dieta alimentar e dificuldade de acesso às iniciativas de assistência pública. 

Iniciativas evangélicas

        A Igreja Indígena está presente, em diferentes níveis de representação, em 150 etnias, possuindo igreja local com liderança própria em 51 e sem liderança própria em 99. Há presença missionária evangélica em 182 etnias indígenas. Esta presença representa mais de 30 Agências Missionárias Evangélicas e quase 100 diferentes Denominações. 
       Em 165 destas etnias há programas e projetos sociais coordenados por missionários evangélicos. Destas, 92 possuem um programa social ativo, 54 possuem dois programas sociais ativos, e 19 possuem 3 ou mais programas perfazendo 257 programas e projetos com ênfase nas áreas de educação (análise linguística, registro, letramento, publicações locais e tradução), saúde (assistência básica, primeiros socorros e clínicas médicas), subsistência e sociocultural (valorização cultural, promoção da cidadania, mercado justo e inclusão social). Apenas 17 etnias com presença missionária evangélica não possuem um programa social ativo. Mais de 90% de todos os programas e projetos são subsidiados por igrejas, empresas e representantes evangélicos do Brasil. Estes números demonstram que a presença missionária evangélica está, histórica e tradicionalmente, sempre associada a iniciativas sociais e culturais, especialmente àquelas com forte valor para o povo local. 
       Dentre as 182 etnias com presença missionária evangélica, 132 possuem indígenas evangélicos e 50 não possuem. Um outro movimento nacional com ênfase nos direitos humanos e especial combate ao infanticídio foi iniciado pela ATINI – VOZ PELA VIDA, e aglutinou nos últimos anos apoio e participação de todos os segmentos evangélicos despertando o debate, expondo fatos contundentes e resultando em ações de valorização à vida e apoio a crianças em risco de infanticídio.
        Há 121 etnias pouco ou não evangelizadas, ou seja, aquelas em que não há presença missionária evangélica nem mesmo presença da igreja indígena. Outros fatores como acesso a outras etnias evangelizadas e dispersão demográfica também foram considerados nesta categoria. Destas 121 etnias pouco ou não evangelizadas, 74 habitam áreas viáveis. O restante se divide entre áreas parcialmente restritas (13) ou restritas (34).
        Não há presença missionária em 95 etnias conhecidas, 27 etnias isoladas e 25 a pesquisar, totalizando 147 etnias sem presença missionária. Dentre as 150 etnias com presença evangélica indígena, 99 não possuem liderança própria e 54 não dispõe de acesso a nenhum programa de ensino bíblico, o que demonstra que a Igreja indígena está em franco crescimento, porém não há proporcional desenvolvimento do ensino e treinamento, o que pode gerar graves problemas como sincretismo e nominalismo.

Análise lingüística e tradução da Bíblia

         Consideramos a existência de 181 línguas indígenas no Brasil, apesar das diferentes discussões e estudos ainda inconclusivos sobre várias delas.
Em 54 línguas há programas de análise linguística e letramento em andamento, sob iniciativa evangélica. Em 31 destas línguas há também programas de tradução bíblica em andamento. No momento contamos com 58 línguas que possuem porções bíblicas, o Novo Testamento ou a Bíblia completa em seu próprio idioma, material este que serve a 66 etnias. 
        Em 3 línguas há a Bíblia completa (que serve a 7 etnias); em 32 há o Novo Testamento completo (que serve a 36 etnias) e em 23 há porções bíblicas, que servem ao mesmo número de etnias.
     Há 10 línguas com clara necessidade de tradução bíblica, 28 com necessidade de um projeto especial de tradução com base na oralidade e 31 com situação ainda indefinida, a avaliar. Estas 31 línguas a avaliar são faladas por 59 etnias. Tanto as línguas com necessidade de projetos de tradução quanto aquelas com necessidade de um projeto especial de oralidade possuem pouquíssima possibilidade de compreensão do Evangelho em alguma outra língua, por outros meios de comunicação ou outros grupos próximos.
        Há cerca de 132 etnias indígenas que falam o Português. 66 destas etnias falam somente o Português e 66 são bilíngues ou trilíngues com o Português. 48 destas 132 etnias manifestam a necessidade de uma nova versão da Bíblia em Português, que facilite o seu entendimento. 
       Dentre as línguas vivas indígenas brasileiras 13% possuem descrição completa, 38% possuem descrição avançada, 29% possuem descrição incipiente e 19% possui pouca ou nenhuma descrição. 1% em situação indefinida.
         O pesquisador alemão Michael Kraus afirma que 27% das línguas sul-americanas não são mais aprendidas pelas crianças. Isso significa que um número cada vez maior de crianças indígenas perde o poder de comunicação em uma língua indígena a cada dia. As razões vão desde a imposição socioeconômica nas etnias mais próximas dos vilarejos e povoados até a falta de valorização sociocultural do grupo, o que fortalece os fatores de atração em direção à sociedade envolvente. 
       Estima-se que, na época da conquista pelos portugueses, eram faladas 1.273 línguas. Ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Estudiosos afirmam que há uma crise sociolingüística no estado de Rondônia, onde 65% das línguas estão seriamente em perigo por não serem mais usadas pelas crianças e por terem pequeno número de falantes.
        A perda lingüística está associada a perdas culturais irreparáveis, como a transmissão do conhecimento, formas artísticas, tradições orais, perspectivas ontológicas e cosmológicas.
     Assim, entende-se que o evangelho não apenas responde aos questionamentos da alma humana, como também contribui para a sobrevivência individual, social, cultural e lingüística dos povos indígenas no Brasil.

Desafios Representados

         Perante tal quadro vários desafios se aprensentam, 
(1) pesquisa e avaliação, 
(2) evangelização e discipulado, 
(3) tradução e uso das Escrituras bíblicas, 
(4) treinamento indígena, 
(5) necessidade de novos missionários, 
(6) necessidade de apoio aos projetos já em andamento e 
(7) apoio especializado . 

De pesquisa e avaliação

     O objetivo é dimensionar a realidade étnica, linguística e sociocultural e colaborar na elaboração de novas iniciativas de relevância junto aos povos indígenas do Brasil.As 42 etnias remotas e as 37 etnias com risco ou já em processo de extinção demandam atenção. As 121 etnias pouco ou não evangelizadas demandam pesquisa para avaliação de estratégias adequadas de cooperação e interação com tais povos. Ampla pesquisa necessita também ser realizada entre as 111 etnias em processo de urbanização, os fatores de atração e as implicações para tais grupos. As 59 etnias que falam línguas ainda a serem avaliadas demandam pesquisa sociolingüística. É necessário também avaliar a demanda de 48 etnias que são monolíngues, bilíngues ou trilíngues do Português e expressam a necessidade de uma versão mais compreensível da Bíblia no próprio Português.

De Evangelização e Discipulado

       Das 121 etnias pouco ou não evangelizadas, 79 habitam áreas chamadas viáveis, ou seja, em que é possível uma interação com os povos indígenas sem maiores barreiras. Outras 47 habitam áreas restritas ou parcialmente restritas. Chama a nossa atenção o alto número de etnias sem conhecimento do evangelho em áreas relativamente abertas e sem iniciativas evangélicas e missionárias. 
       Há ainda 95 etnias indígenas conhecidas sem presença missionária, o que manifesta que a grande necessidade dos movimentos missionários ainda são os recursos humanos. Pensando que mais de 40% das ações missionárias em andamento demandam com urgência mais pessoas para assegurar o seu prosseguimento, e que 95 etnias permanecem sem presença missionária, podemos estimar a necessidade de no mínimo 357 novas unidades misssionárias (solteiros ou casais) para reforçar o trabalho existente e iniciar novos. Levando em consideração as ações especializadas bem como o trabalho administrativo, logístico e pastoral que tanto precedem quanto acompanham tais iniciativas, asseguradamente seriam necessárias no mínimo 500 novas unidades missionárias para fazer frente ao presente desafio total. Isto não será possível sem 
(1) a mobilização da Igreja brasileira no recrutamento e envio, 
(2) o apoio às organizações missionárias, 
(3) o apoio às instituições de ensino e preparo missionário, teológico, missiológico, antropológico e linguístico, e 
(4) muita oração.
       As 37 etnias com confirmado ou possível risco de extinção bem como as 111 em processo de urbanização formam dois grupos com movimentos demográficos distintos, mas igualmente carentes de evangelização e discipulado.

De tradução e uso das Escrituras

       O desafio nesta área se faz presente tanto nas 10 línguas com carência confirmada de tradução bíblica, nas 28 com necessidade de um projeto especial de oralidade, como também nas 54 que possuem projetos lingüísticos e de tradução em andamento. É imperativo apoiarmos aqueles que já estão no caminho, com longo trabalho já realizado, e não somente investirmos em novas iniciativas. 
         Há também um desafio apresentado em muitas etnias que já possuem a Bíblia, ou porções bíblicas, em sua língua materna, e se refere ao uso das Escrituras. Há 17 etnias com acesso à Bíblia (seja porção, Novo Testamento ou Velho Testamento) na língua materna, mas sem indígenas evangélicos entre eles. Ou seja, a Bíblia está presente, mas não está sendo usada. Há ainda outras 25 etnias com o mesmo acesso à Bíblia, e com existência da igreja indígena local, mas sem liderança própria.
       Vemos, portanto, que nesta área precisamos olhar para os que já estão caminhando, para que não parem ao longo do caminho; para os que irão iniciar a caminhada com novos desafios, e para aqueles cujo trabalho de tradução já foi concluído, mas o uso das Escrituras necessita ser reavivado. Precisamos de educadores e mestres na mesma proporção que linguistas e tradutores.

De treinamento indígena

     As 99 etnias com igreja evangélica, mas sem liderança própria, representam a extensão do desafio de treinamento em nossos dias. Junta-se a isto o fato de que 67 destas etnias possuem pouco acesso a cursos bíblicos, e 54 não possuem nenhum acesso. 
       A Igreja Indígena vive um momento de crescente interesse na capacitação bíblica e em outras diversas áreas, porém sofre com a ausência de treinamento perante a demanda e necessidade. É necessário observarmos para onde o vento sopra e nos juntarmos a este movimento.
     Uma das conclusões estratégicas mais claras e urgentes nestes últimos anos é esta: é necessário investir de forma intencional e abundante no treinamento dos líderes indígenas evangélicos. 

De novos missionários e iniciativas

      Como foi mencionado há grande necessidade de no mínimo 500 novas unidades missionárias nos próximos anos para fazer frente às demandas e oportunidades. É de senso comum que eles
(1) tenham compromisso com Cristo e a obra missionária entre os povos indígenas;
(2) estejam desejosos de se envolverem com desafios e programas de médio e longo prazo;
(3) sejam aptos ao aprendizado de uma nova língua e cultura;
(4) tenham forte desejo de se envolverem com o universo indígena de forma integral;
(5) sejam aprovados segundo a Palavra de Deus (1 Timóteo 3).
Há necessidade de novos missionários tanto para a condução de projetos mais antigos, em andamento, como em novas iniciativas. Em ambas as situações as principais atividades são:
(1) Evangelização e plantio de igrejas;
(2) Discipulado e treinamento de líderes indígenas;
(3) Desenvolvimento de ações sociais relevantes; 
(4) Tradução bíblica e projetos especiais de oralidade; 
(5) Apoio especializado: logística, transporte e comunicação; missiologia, linguística e antropologia; 
(6) Pesquisa e desenvolvimento de estratégias.

De apoio a projetos em andamento

       É necessário atenção às atividades missionárias em andamento, especialmente aquelas que estão em fase de consolidação ou conclusão (mais de 10 anos). Pela índole da Igreja Evangélica Brasileira, e seu afã por novas iniciativas, não raramente deixamos para trás preciosas sementes que foram lançadas na terra há uma ou mais décadas e que precisam de maior atenção e apoio. Refiro-me, portanto, à presença missionária em 182 etnias, aos 257 programas sociais em atividade, aos projetos de linguística e tradução em 54 línguas, aos três grandes movimentos evangélicos indígenas e aos 16 seminários e cursos com ênfase no treinamento indígena. Há clara necessidade de apoio para a consolidação e continuidade de tais atividades. 

De apoio especializado

     Em diversas atividades missionárias há necessidade de apoio técnico especializado, essencial para a qualidade da produção. Podemos citar áreas como a linguística, antropologia, missiologia, pesquisa, desenvolvimento comunitário, ações sociais, consultoria jurídica, transporte, comunicação e logística. Sem um adequado fortalecimento no apoio especializado as ações missionárias entre os povos indígenas perderão força, qualidade e oportunidade.
      Podemos observar o que instituições e iniciativas como Asas do Socorro representam em relação a apoio logístico, transporte, comunicação e ações sociais. Tais iniciativas, especializadas, multiplicam as ações missionárias e são parte fundamental para boa parte do trabalho realizado. 
     O sincero desejo de se relacionar de forma relevante com os povos indígenas não é suficiente para assegurar posturas, abordagens e iniciativas acertadas. Faz-se necessário um relacionamento dialógico, constante auto-avaliação e discernimento. 
      A AMTB, em seu código de valores, expresso na introdução do livro A Questão Indígena, Editora Ultimato, afirma que o movimento missionário evangélico possui alvos de forte colaboração com a preservação cultural, social e lingüística das sociedades indígenas de nosso país, tais como: 
Contribuir para que o indígena valorize e permaneça em sua própria terra natal (sua ‘homeland’) evitando migrações tempestivas e com conseqüência social negativa para as beiras dos grandes rios, centros em urbanização ou urbanizados.
Colaborar para que haja um bom programa de educação na própria língua materna, valorizando-a e possibilitando que seus fatos históricos e sociais sejam por eles registrados, preservados e transmitidos perante este contexto de rápida influência social externa que não raramente invalida o valor da língua materna para um grupo.
Colaborar para que haja programas em áreas vitais, como a saúde, que responda às necessidades essenciais dos grupos indígenas.
Contribuir para que, em processos já em andamento de integração com a sociedade não indígena, se colabore com os mecanismos de valorização étnica, cultural e lingüística, a fim de que o grupo não seja diluído perante a sociedade maior. Também colaborar com o grupo em sua busca por uma convivência digna com outros, quando fora da sua terra natal.
         Mais adiante expõe sua crença no evangelho que liberta e, como tal, seu desejo de partilhá-lo com todos os povos. Para tal, distingue a evangelização da catequese dizendo: Esta evangelização difere-se da catequese em relação ao conteúdo, abordagem e comunicação. O conteúdo da catequese é a Igreja, com seus símbolos, estrutura e práticas, sua eclesiologia. O conteúdo da evangelização é o evangelho, os valores cristãos centrados em Jesus Cristo. A abordagem da catequese é impositiva e coercitiva. A abordagem da evangelização é dialógica e expositiva. A catequese se comunica a partir dos códigos do transmissor, sua língua e seus costumes, importando e enraizando valores. A evangelização se dá com a utilização dos códigos do receptor, sua língua, cultura e ambiente, respeitando os valores locais e contextualizando a mensagem.
       Cremos, portanto, que a experiência transformadora de João Batista é plano de Deus para todo o mundo: “No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. (Jo 1: 29) 

O evangelho e a cultura indígena

          A simples presença missionária entre povos indígenas suscita em alguns um sentimento de rejeição, que advém de um emaranhado de impressões e fatos históricos em relação à atuação missionária indígena desde a colonização relembrando uma Igreja que estava a serviço dos interesses políticos, imperialistas e colonizadores. Em outros o sentimento é de suspeição, debaixo do pressuposto de que qualquer atuação missionária é nociva à preservação cultural indígena. Perante este contexto, e sobretudo para aqueles que se embutem de rejeição ou suspeição, desejamos expor fatos sociais, culturais e históricos que poderão mostrar com clareza que a presença missionária evangélica entre povos indígenas está hoje associada a um crescente processo de colaboração com a preservação lingüística e cultural dos povos do Brasil, além de mostrar-se ativamente interessada em participar do despertar indígena que busca seu lugar neste grande país. 
           
             A presente realidade cultural indígena em relação aos processos de mudança social

         Tornou-se rotineira a veiculação de notícias sobre indígenas brasileiros ingressando em cursos superiores, formando-se advogados, enfermeiros, ambientalistas, dentre muitas outras profissões, galgando novos patamares de protagonismo, empreendedorismo e agenciamento na sociedade nacional. Alguns grupos e indivíduos participam ativamente da economia local e até internacional. Cada vez em maior número e força as sociedades indígenas e seus indivíduos influenciam ativamente a política local, desejando ansiosamente participar da construção de leis e atividades que são de seu interesse e os afetam diretamente. Em algumas regiões do Brasil a participação indígena pode mudar os rumos das eleições municipais.  Muitos indígenas podem e usufruem dos benefícios sociais garantidos constitucionalmente, oferecidos pelas três instâncias da administração executiva do país. Do Governo Federal vêm auxílios e bolsas, tais como Auxílio Maternidade, Bolsa Família, aposentadorias e salários, além das atividades praticadas pelos dois órgãos de auxílio indígena federais: a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e FUNASA (Fundação Nacional da Saúde). Dos governos Estaduais e Municipais, vêm projetos desenvolvimentistas, apoio para projetos locais, além da educação e saúde, operacionalizados na esfera municipal. O universo indígena brasileiro está em franca transformação social por diversos motivos e poucas etnias continuam alheias a este processo. Tais motivos são muito menos religiosos (evangelização) e muito mais sociais e políticos, ou seja, o poder de influência e atração da sociedade brasileira não indígena bem como as políticas públicas do governo do nosso país provendo educação, saúde e bem estar, gerando nas etnias indígenas expectativas cada vez mais associadas ao universo não indígena. Qualquer contato, seja motivado pelo interesse econômico, político, governamental ou religioso, pode ser potencialmente revolucionário para as sociedades indígenas.
          É fácil constatar tal realidade de transformação sociocultural e dissociá-la das ações missionárias, em grande parte. Para isto basta observar as vastas áreas indígenas sem presença missionária onde tais processos de transformação transcorrem com grande velocidade, sempre atrelados à atração que pequenos vilarejos ou cidades exercem sobre os povos indígenas, ou às políticas públicas que se propõe a levar bem estar e, consequentente conduzem também padrões socioculturais alienígenas ao universo indígena. Não são poucas as etnias  migrando do interior da mata para a beira dos grandes rios a fim de terem acesso ao escambo promovido por barcos-comércios bem como à educação e saúde em pólos mais próximos aos centros urbanos ou em urbanização. É certo concluir que, a medida que o indígena se aproxima de um contexto distinto e urbanizado, ele se insere em um ambiente onde é facilmente descriminado por não se adequar às exigências sociais locais gerando, assim, um misto de frustração em relação ao meio e anseio por encontrar uma medida de concordância entre ser índio ao mesmo tempo em que possa ser respeitado e usufruir do novo que julga bom. Este estado de transição no qual a maior parte das etnias brasileiras se encontra é, certamente, um dos problemas mais graves e complexos observados, e não há fácil resposta. Há iniciativas integracionistas, outras preservacionistas e ainda as que segregam socialmente os indígenas. Porém todas concordam que a presente realidade de transição é complexa e com graves conseqüências culturais para os povos do Brasil. Junto a isto se soma o fato de que se lida, no Brasil e em toda a América do Sul, com uma vasta diversidade lingüística e cultural entre os grupos indígenas. O próprio termo indígena é resultado de nosso simplismo ao imaginarmos um grupo homogêneo, com anseios e necessidades também semelhantes. É preciso relembrar que as mais de 250 etnias indígenas brasileiras formam, assim, um universo pulverizado e heterogêneo, lingüística, cultural e socialmente.
          Se por um lado estes processos nos preocupam, por outro devem nos levar a refletir sobre as escolhas iniciadas pela maioria dos grupos indígenas, o que buscam e quais seus anseios. Todos os principais teóricos da antropologia afirmaram, em maior ou menos escala, o pressuposto das mudanças culturais. Para muitos destes, a mudança cultural é um fenômeno natural e previsível, um processo inerente à dinâmica essencial das culturas humanas, podendo ocorrer como reações e reajustes endógenos e/ou por motivações exógenas, geralmente advindas do contato intercultural, marcadas ou não por pressões e imposições externas. As trocas interculturais são, portanto, um processo comum e importante na medida em que alargam os horizontes da compreensão humana, as possibilidades de atuação econômica e produtiva, e possibilitam que os membros de uma sociedade repensem sua organização social, seus tabus, interditos e preconceitos, e revejam seu modus vivendi. A história humana é repleta de exemplos de grupos humanos que cresceram, progrediram e multiplicaram-se após ajustes sociais advindos de mudanças culturais, quer motivadas pela reflexão interna e endógena, quer pelo contato com indivíduos de outras sociedades. A dinâmica cultural é um dado fundamental para toda e qualquer sociedade, e sinal de que a cultura está viva e gozando de plena saúde. Isto nos faz pensar sobre a postura do mundo não indígena em relação ao indígena concernente ao respeito às suas escolhas, decisões e questionamentos. 
            Percebemos assim, que:
          Universo indígena é heterogêneo, sendo formado por uma grande diversidade cultural e lingüística. A realidade de um grupo indígena não é a realidade de todos, bem como sua jornada. O universo indígena é formado tanto pelos índios citadinos semi integrados ao ambiente não indígena, quanto pelos índios da floresta que desejam manter distância, e por um leque enorme de categorias entre estes dois pontos.
           As principais forças de transformação cultural entre os grupos indígenas do Brasil são a sociedade não indígena e as políticas públicas governamentais. Enquanto a primeira produz um poder de atração de forma não planejada e informal a segunda o faz por meio dos serviços que julga relevantes e necessários aos povos indígenas. 
            A cultura humana é dinâmica provocando e sofrendo processos de mudanças. Seja por motivações internas ou a partir de trocas interculturais, cabe ao próprio grupo refletir sobre sua organização social, tabus e crenças. Cabe também ao próprio grupo promover, ou não, ajustes sociais que julguem de benefício humano.                                          

A cultura e o evangelho

           Nenhum elemento externo jamais deve ser imposto a uma cultura. Toda imposição pressupõe carência de respeito humano e cultural, além de grave erro na construção do diálogo. Assim, a catequese histórica e impositiva, bem como qualquer outro elemento que force a mudanças não desejadas, mesmo em áreas como educação, saúde e subsistência, devem ser duramente criticadas.
         Por outro lado, é também respeito cultural conceber ao indígena o direito de realizar escolhas, voluntárias e desejadas, dentro de seu próprio bojo cultural. Para Roberto Cardoso a mudança é possível se percebida sua necessidade e deve ser processada no interior de uma comunidade intercultural de argumentação. Ele se baseia no etno-desenvolvimento que, na declaração de San José (1981) é “o fortalecimento da capacidade autônoma de decisão de uma sociedade culturalmente diferenciada para orientar seu próprio desenvolvimento e o exercício da autodeterminação”.
           Rouanet expõe que “o homem não pode viver fora da cultura, mas ela não é seu destino, e sim um meio para sua liberdade. Levar a sério a cultura não significa sacralizá-la e sim permitir que a exigência de problematização inerente à comunicação que se dá na cultura se desenvolva até o telos do descentramento” Este argumento nos leva a compreender que os conflitos são universais, tais como a morte, o sofrimento, a discriminação ou a repressão. E perante estes conflitos podemos compartilhar a mútua experimentação na busca de soluções internas.
               As chamadas mudanças culturais, em lugar de causar rápida rejeição, deve ser observada de forma mais íntegra, ou seja, se tais mudanças são voluntárias e desejadas. O machismo, na América Latina, embora seja cultural, é atacado e limitado por políticas públicas que vêem neste elemento cultural um dano ao próprio homem e sociedade. O jeitinho brasileiro, que patrocina a corrupção e tolerância de pequenos delitos, apesar de ser resultante de elementos também culturais não deixa de ser compreendido como nocivo ao homem. Como tal não é aceito pela sociedade como desculpa para a continuidade de práticas danosas à vida. O mesmo poderíamos falar a respeito do racismo. Nestes três casos a universalidade ética é evocada e aceita de forma geral pela sociedade e os direitos humanos são reconhecidos. Porque que não no caso de elementos culturais nocivos à vida, em contexto indígena?
           O fato é que a aproximação e conhecimento do evangelho e valores bíblico-cristãos contribui para uma reflexão interna em algumas sociedades indígenas gerando mudanças voluntárias e desejadas. Se as culturas são móveis e mutáveis, porque as mudanças provocadas a partir do conhecimento dos valores cristãos e do evangelho despertam tantas e tão violentas reações quando se trata de culturas indígenas?
            Quando as motivações missionárias são questionadas, em sua relação com as sociedades indígenas, há de se notar clara discriminação. Há iniciativas particulares e governamentais junto às sociedades indígenas conduzidas pelas mais diversas motivações como a política, financeira e humanista. A iniciativa missionária evangélica possui como principal motivação valores cristãos como o amor ao próximo, a solidariedade humana e o evangelho e, devido a isto, sente-se freqüentemente discriminada, como se a motivação religiosa fosse menos digna que a política. Precisamos rever nossos pressupostos.
           Há grave diferença entre a catequese e a evangelização. Todo cristão, sincero e convicto de sua fé, tem ou deveria ter o desejo de compartilhar aquilo que tem de mais precioso em seu ser e sua cultura, qual seja, a sua fé e as verdades do evangelho, uma baseada e construtora da outra. Tal compartilhar, quando em um ambiente em que o mesmo é desejado pelo receptor, não oprime a cultura, ao contrário promove diálogo e reflexão. Esta evangelização difere-se da catequese em relação ao conteúdo, abordagem e comunicação. O conteúdo da catequese é a Igreja, com seus símbolos, estrutura e práticas, sua eclesiologia.  O conteúdo da evangelização é o evangelho, os valores cristãos centrados em Jesus Cristo. A abordagem da catequese é impositiva e coercitiva. A abordagem da evangelização é dialógica e expositiva. A catequese se comunica a partir dos códigos do transmissor, sua língua e seus costumes importando e enraizando valores. A evangelização se dá com a utilização dos códigos do receptor, sua língua, cultura e ambiente, respeitando os valores locais e contextualizando a mensagem.
           A influência intencional do movimento missionário evangélico orientado pela AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras) possui alvos de forte colaboração com a preservação cultural, social e lingüística das sociedades indígenas de nosso País, tais como: 
        - Contribuir para que o indígena valorize e permaneça em sua própria terra natal (sua homeland) evitando migrações tempestivas e com conseqüência social negativa para as beiras dos grandes rios, centros em urbanização ou urbanizados.
            - Colaborar para que haja um bom programa de educação na própria língua materna, valorizando-a e possibilitando que seus fatos históricos e sociais sejam por eles registrados, preservados e transmitidos perante este contexto de rápida influência social externa que não raramente invalida o valor da língua materna para um grupo.
          - Colaborar para que haja programas em áreas vitais, como a saúde, que responda às necessidades essenciais dos grupos indígenas.
            - Contribuir para que, em processos  já em andamento de integração com a sociedade não indígena, colaborar com os mecanismos de valorização étnica, cultural e lingüística, a fim de que o grupo não seja diluído perante a sociedade maior. Também colaborar com o grupo em sua busca por uma convivência digna com outros, quando fora da sua terra natal.
         Em uma observação imparcial, destituída de pressupostos discriminatórios quanto à evangelização, perceberíamos que diversas sociedades indígenas que mantém um relacionamento mais próximo com missionários evangélicos valorizam mais sua própria cultura e língua do que no passado.
         Não podemos negar que a postura antropológica brasileira, não intervencionista, é influenciada também pela culpa coletiva pelo passado, pela forma desastrosa como os indígenas foram julgados e condenados. Postura semelhante se viu na Alemanha pós-nazista que, de uma xenofobia causticante, se extremou por algum tempo nos caminhos de uma tolerância radical ao diferente, qualquer diferente, mesmo o nocivo socialmente.
        Aryon Rodrigues estima que, na época da conquista, eram faladas 1.273 línguas, ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Luciana Storto chama a atenção para o Estado de Rondônia, onde 65% das línguas estão seriamente em perigo por não serem mais aprendidas pelas crianças e por terem um ínfimo número de falantes. Precisamos perceber que a perda lingüística está associada a perdas culturais complexas, como a transmissão do conhecimento, formas artísticas, tradições orais, perspectivas ontológicas e cosmológicas. 
        Perante tal realidade somos levados a observar o passado e defender uma postura radicalmente não intervencionista, não dialógica, no presente. No subconsciente talvez estejamos tentando minimizar o risco de outros erros. Porém não percebemos que esta omissão apenas há de contribuir para a ausência de soluções de subsistência, seja numérica, lingüística ou cultural, dos povos indígenas do Brasil. Não devemos evitar o diálogo, mas sim a subversão. Não devemos nos omitir da busca coletiva pela solução de conflitos, mas sim evitar a imposição em reações que não sejam autônomas. Ao participar da construção do ambiente que gera o dano devemos também participar da busca pelas soluções.
           Percebemos assim que:
        Toda imposição é nociva e desrespeitosa. Nenhum elemento deve ser imposto a uma sociedade, seja indígena ou não indígena, sob nenhum pressuposto.
        A cultura humana não é o destino do homem e sim seu meio de liberdade. É também respeito cultural conceber ao indígena o direito de realizar escolhas, voluntárias e desejadas, dentro de seu próprio bojo pessoal e social.
      As motivações missionárias evangélicas para o relacionamento com as sociedades indígenas devem ser igualmente respeitadas. Motivação religiosa não deve ser confundida com imposição religiosa. A evangelização difere-se da catequese em relação ao conteúdo, abordagem e comunicação. Cabe ao indígena mensurar o valor da evangelização, em seu ambiente e com total liberdade.
 Amém....